quarta-feira, 21 de março de 2012

Ele se chama Rodolfo


Porque em uma folha de papel se pode escrever a mais bela história de amor, ou a mais bela canção em melodia romântica. Mas ele já estava cansado dessas velhas histórias, os dramas reais de vida e morte são mais fortes e emocionantes. Ele também já não era uma criança que se apaixonava ao ver um belo sorriso sobre a luz da lua. Já até podia se dizer que o amor para ele só se encontrava na escrita. Só se via um pequeno semblante de alegria quando ele se sentava em frente de sua velha máquina de escrever e ficava por horas olhando aquelas letras e arregalando seus olhos pouco antes de começar a digitar. Racionalidade só era percebida em seus escritos que traziam sempre o jovem que pensava meticulosamente o que faria quando se defrontasse com a morte. 
A morte já tinha se tornado um alvo cotidiano de seus contos, era entendida como uma vilã ao começo mas ao final se via que a morte era só um desabafo de um rapaz que deixava os seus sofrimentos sobre o chão de um quarto de piso gelado, cadeira rústica ao canto acompanhado de uma carteira de madeira grossa, bastante empoeirada, com incontáveis folhas em branco. Uma enorme janela ás costas com vidros sempre fechados e cortina vermelha tapando qualquer luz natural. 
O tal rapaz não era velho, era ainda novo. Mas a barba mal feita, o descuidado consigo mesmo, já por não ter vontade, fazia-o ter uma aparência mais antiga, como de um velho arrojado, parecia pré-potente e vicioso. Seu colete cor pálida sobre seu suéter cinza suas calças agarradas mostrava que fora teimoso em resistir as mudanças da sociedade. Apesar de não conviver com a sociedade, ele sabia quais eram seus pensamentos e divergências, desconfiava de que um dia ela fosse se perder não tendo um modelo a seguir e causaria um caos. Portanto acabou se fechando a tudo e a todos. Só se via o garoto, vagando de um canto a outro de sua casa, sempre com olhos arregalados, parecia o tempo todo meditar. E assim que entrava no quarto com aquele papéis espalhados ao chão, sentava em sua cadeira e parecia desabar todos os pensamentos em pequenas letrinhas deixando sua vida e receios ali.

Cansou. Cansou da monotonia e foi-se. Foi descobrir o além do desabafo, o permanente fim das escritas dramáticas. Vai-se como um pássaro e só volta como uma brisa. Somente o que ficou foi cinzas de papéis e letras queimadas, versos apagados e melodias sem som. O corpo queimado junto a todos desabafos do jovem, ou velho, ou agora morto rapaz. As únicas folhas que sobram sob a carteira iniciavam:  
 Carta De Suicídio… 


- Fragmento de João Pedro Silveira in "Ele se chama Rodolfo" 


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