segunda-feira, 26 de março de 2012

E Maria só tinha 14 anos


A pequena Maria era diferente do resto das pessoas pois procurava a loucura e não lucidez, ela sorria sozinha, toda vez que chovia ela chorava o dia todo pois segundo ela Deus também se cansava de guarda tanta coisa só para ele e uma hora chorava e com suas lagrimas que vinham do céu de alguma forma  ele lavava a alma dos humanos sujos e inúteis aqui da terra. Maria sorria, usava um óculos fundo de garrafa e um aparelho esquisito, mais o seu interior era lindo, era alegre diferente dos clones que as pessoas resolveram se tornar, ela adorava demonstrar o que sentia e isso a tornava uma pessoa ridícula aos olhos do mundo, mas Maria aprendeu a criar seu próprio universo onde ela não se baseava nos padrões escrotos que a sociedade impunha. Ela definitivamente podia ser o exemplo vivo de que felicidade não é momentânea, de que a vontade de viver vem da esperança de cada amanhecer e mesmo que tudo estivesse desmoronando o brilho do sorriso era capaz de vencer todo o escuro que lutava para acabar com a felicidade daquele corpo magro e desengonçado de Maria. Apesar de ter os piores apelidos da escola, tinha uma força e um poder que ate a própria alegria invejava. Maria era menina de sorte, não tinha amigos, mais tinha um cachorro de rua, sujo que sempre a acompanhava ate a entrada da escola. Quando o sinal batia Maria era a primeira a sair correndo, e cortava toda a multidão para abraçar o fedido e sarnento do cachorro que ainda a esperava lado de fora da escola. Todos tinham nojo do animal, mas Maria tinha um amor incondicional pelo bichinho. Era dia e noite com o cachorro que ela resolveu dar o nome de miau… Isso mesmo miau, só não me pergunte o porque. Nos finais de semana, ela ia trabalhar no trailer do pai, vendendo cachorro quente. Essa era a rotina da pequena Maria. Ela tinha 4 irmãos, era a única mulher da casa já que a mãe era uma vadia qualquer que abandonou o pai para ir a uma viajem que não deu certo para a Bahia com um homem nojento, um mulato de 1,90 de altura que assim que viu que ”Adelaide” não prestava nem para lavar suas cuecas, a abandonou no ponto de ônibus na madrugada de um domingo qualquer. Maria tinha uns 6 anos e nunca mais ouviu falar da mãe que resolveu naquela mesma noite, se matar por ter sido abandonada, por ter escutados umas boas verdades, por perceber que não prestava.
Maria passou a partir dai cuidar da casa e dos irmãos. Maria hoje era pra ter 16 anos. Seu pai um homem de uns 49 anos, cabelos brancos e uma cara acabada, era fechado para o mundo, nem com Maria se comunicava direito. Era um homem culto que admirava respeito e era respeitado e admirado tanto pelos filhos como pela vizinhança pela sua história de um amor não correspondido, era admirado por ter dado a volta por cima e consegui superar a pior barra que era ser pai solteiro, ou melhor viúvo de 4 crianças. Pedro o irmão mais novo tinha 9 anos, os gêmeos Vitor e Valter tinham 11 e eram uns capetas. Suzana a Irma mais velha se perdeu nas drogas quando a mãe saiu de casa. Ela tinha 10 anos quando a mulher fugiu com o mulato e sumiu também, as vezes aparece dormindo no banco da praça, mas sua aparência é irreconhecível. Maria, continuava a estudar, e por sinal sempre foi aluna esforçada, tinha a esperança de um dia se formar e dar uma vida melhor a família. Continuava cuidando de Miau, e dos irmãos, nessa época ela tinha 13 anos. Em uma manha de domingo, ao acordar percebeu que o pai não havia dormido na casa e desesperada saiu pra rua de pijama mesmo, encontra então o pai bêbado, deitado debaixo do caminho do vizinho da frente Osvaldo. Maria chorando por ver o pai naquele estado e em uma  tentativa fracassada de o tirar daquele lugar, ele em um gesto bruto da um tapa na cara de Maria que cai ao chão chorando mais ainda. O pai, ainda bêbado, se levanta e entra quebrando tudo na casa. Acaba batendo no cachorrinho de Maria que ao tentar defende-lo, com mais um gesto agressivo do pai cai e batendo a cabeça na mesa e acaba perdendo a consciência. Quando Maria acorda na esperança de aquilo tudo ter sido apenas um pesadelo, percebe, ao abrir de seus olinhos foi a mais triste realidade, enxergaram todo o estrago que havia acontecido ali. O coração de Maria estava em pedaços, seus irmão correram abraçá-la e chorando todos juntos começaram a arrumar a casa. Algum tempo se passou e toda a alegria de Maria estava escondida. Na escola ela agora era quieta, imóvel, mas com pensamentos inquietos e olhos totalmente inconsoláveis, sentimentos antes nunca sentidos despertaram, e Maria pela primeira vez se sentiu vazia, sentiu como é estar sozinha. Um ano se passou e o pai, evitava a olhar nos olhos desde então. Isso só fazia os sentimentos ruins aumentarem. Na manha de seu aniversario de 14 anos Maria teve uma grande surpresa… Com um sorriso meio sem jeito, com os olhos ainda apagados pelos erros cometidos no passado, cabelos bagunçados, seu pai a acorda com um pequeno embrulho na mão e diz:  “ minha pequena Maria, parabéns pelo seu dia… e se puder perdoe o seu pai, sabe o quanto cansa sentir falta, se sentir vulnerável ? “
Maria com lagrimas nos olhos, responde ao pai: “sabe papai, a muito tempo eu vinha procurando nesse teu olhar sinceridade, afeto e amor, coisa que as cicatrizes de um passado doloroso apagou do senhor, mas sim eu te perdôo, e sim nesse ultimo ano eu aprendi com muita dor o que é se sentir vulnerável, principalmente o que é ser vulnerável a sentimentos indesejados. “ ela pega o pequeno presente, e o pai sem resposta a sabia resposta da filha, deixa escorrer uma lagrima e com passos apreensivos vai se afastando antes que ela abrisse o presente.  Maria  abre o presente, e vê que é uma corrente,  linda corrente, no mesmo instante se levanta da cama, e, com seus passos desajeitados como os de quem acabou de acordar, procura com os olhos cheio de lagrimas a imagem de seu pai. Ao vê-lo na cozinha, tomando café ela corre gritando “ pai, pai, pai…” o homem assustado se levanta da cadeira e é surpreendendo pelo mais lindo gesto de carinho que a uma filha pode dar ao pai um abraço. O sorriso do velho homem não servia no rosto que chegou a ganhar vida, Maria, voltou a ser feliz, sorridente e diferente novamente. Essa diferença já estava fazendo falta.
Acabou a melancolia, acabou a tristeza, acabou a vontade de sumir do mundo, ela agora queria viver. Em uma sexta-feira, Maria acorda se sentindo meio mal, mas mesmo assim vai a escola. No caminho encontra miau, que se esfregando em suas pernas como um gato, a alegra e faz todo o mal estar passar. Sentada em sua carteira, fazendo as contas complicadas de matemática, ela solta uma gargalhada e fala “ Amanha é sábado” rindo descontroladamente, Maria teve que sair da sala de aula pois estava atrapalhando a concentração dos outros alunos. O sinal bate, e Maria corre para porta da escola, saltitando, cantarolando, rindo e até chorando… Todos a olham até que alguém solta “ Maria voltou gente “. Ela abraça o pulguento e vai pra casa, agora com a mesma força e beleza interior de sempre.
No sábado, ela se levanta mais cedo que o pai, arruma a casa, passa as camisas amassadas do velho, arruma a mesa do café, e em pequenos passos, ela envolve o pai em um abraço e fala em seu ouvido bem baixinho “bom dia meu anjo da guarda”. O pai então acorda disposto e corre atrás da filha pela casa e a enche de beijos e abraços. Os dois parecem bobos, olham pro teto e dão risada, olham pra cara um do outro e com a boca fazem coisas estranhas, que são bastante engraçadas, o pai decidiu não trabalhar esse sábado para passar mais tempo com os filhos e com Maria. Victor e Valter, brincam de lutinha no quarto, Maria aproveitou o silencio de Pedro para ler seu livro, e o pai tomava um banho para relaxar. Depois de um dia cheio de alegrias e momentos felizes, o pai pega os colchões e os coloca na sala, todos dormem ali, abraçados, unidos como nunca.
Ao acordar lá pelas 11:30 no domingo, Maria toma um banho já se preparando para uma jornada de trabalho que vai das seis da tarde até as onze da noite. O pai acorda preguiçoso, prepara o café para as crianças e os prepara para levar na casa da tia Marilda, que fica com eles até o trabalho de Maria e o dele acabar.
Depois de deixar os meninos na casa da tia, ele e a Maria vão para o trailer. Assim começa um dia corrido de trabalho. O pai de Maria resolveu sair para comprar o que faltava e a deixou pela primeira vez  cuidando do caixa. Ao sair, uns caras estranhos chegam no local, Maria fica desesperada pois vê que eles tem uma arma. No seu caminho para o mercado, o pai de Maria percebe que esqueceu a carteira, e volta para o trailer, ao chegar lá, vê que tudo esta de perna para o ar, as pessoas estavam no chão, Maria encolhida em um canto com uma arma em sua cabeça chora desesperadamente. Seu pai, ao ver a pequena tão indefesa, implora para os assaltantes soltarem Maria, um deles a pega pelo cabelo e a empurra, e ela cai lentamente em um abraço seguro do pai, que chora por ter a filha ali, em seus braços. O pai de Maria resolve então tentar se livrar dos assaltantes, e começa a discutir, Maria pede para que o pai para, e ele grita com ela e a manda ficar quieta. Quando ele faz isso, um dos homens diz: “você deveria aprender a escutar sua filha” e aponta uma arma para ele. Sem reação ele fecha seus olhos e escuta o homem apertar o gatilho da arma. Tudo então parece ter acabado quando ele escuta um grito desesperado de dor, ele abre seus olhos e vê que ainda esta ali, vivo. Ao olhar para baixo vê Maria, caída, sangrando. Ele chora e abraça a filha repetindo muitas vezes “minha Maria, não me abandone, não me abandone “ Maria respira fundo, e com os olhos se fechando lentamente diz ao pai “ Já superou tantas coisas meu pai, não vai ser a minha ausência em vida que ira te fazer desistir de tudo” e fechas seus olhos ficando assim em um eterno silencio. É não teve jeito, a pequena Maria se foi, o exemplo de alegria partiu para um descanso, partiu para chorar ao lado de Deus quando estiver com saudade de seu pai e de seus irmãos. A ultima vez que ouvi falar da família de Maria, foi no seu enterro, me lembro exatamente das palavras de seu pai que sinceramente, foram as mais belas expressões de saudade e amor que eu já escutei, elas foram assim: “ Maria, minha filha, meu anjinho da guarda, ganhou asas, vai voar, pra longe de mim, mas sei que longe ainda estará perto, só me pergunto hoje e pro resto da minha vida em quantas lagrima eu irei conseguir descrever saudade e em quantos sorrisos irei conseguir encontrar verdade depois que minha querida filha se foi…” 

Julia Del Poço in   " E Maria só tinha 14 anos"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ele se chama Rodolfo


Porque em uma folha de papel se pode escrever a mais bela história de amor, ou a mais bela canção em melodia romântica. Mas ele já estava cansado dessas velhas histórias, os dramas reais de vida e morte são mais fortes e emocionantes. Ele também já não era uma criança que se apaixonava ao ver um belo sorriso sobre a luz da lua. Já até podia se dizer que o amor para ele só se encontrava na escrita. Só se via um pequeno semblante de alegria quando ele se sentava em frente de sua velha máquina de escrever e ficava por horas olhando aquelas letras e arregalando seus olhos pouco antes de começar a digitar. Racionalidade só era percebida em seus escritos que traziam sempre o jovem que pensava meticulosamente o que faria quando se defrontasse com a morte. 
A morte já tinha se tornado um alvo cotidiano de seus contos, era entendida como uma vilã ao começo mas ao final se via que a morte era só um desabafo de um rapaz que deixava os seus sofrimentos sobre o chão de um quarto de piso gelado, cadeira rústica ao canto acompanhado de uma carteira de madeira grossa, bastante empoeirada, com incontáveis folhas em branco. Uma enorme janela ás costas com vidros sempre fechados e cortina vermelha tapando qualquer luz natural. 
O tal rapaz não era velho, era ainda novo. Mas a barba mal feita, o descuidado consigo mesmo, já por não ter vontade, fazia-o ter uma aparência mais antiga, como de um velho arrojado, parecia pré-potente e vicioso. Seu colete cor pálida sobre seu suéter cinza suas calças agarradas mostrava que fora teimoso em resistir as mudanças da sociedade. Apesar de não conviver com a sociedade, ele sabia quais eram seus pensamentos e divergências, desconfiava de que um dia ela fosse se perder não tendo um modelo a seguir e causaria um caos. Portanto acabou se fechando a tudo e a todos. Só se via o garoto, vagando de um canto a outro de sua casa, sempre com olhos arregalados, parecia o tempo todo meditar. E assim que entrava no quarto com aquele papéis espalhados ao chão, sentava em sua cadeira e parecia desabar todos os pensamentos em pequenas letrinhas deixando sua vida e receios ali.

Cansou. Cansou da monotonia e foi-se. Foi descobrir o além do desabafo, o permanente fim das escritas dramáticas. Vai-se como um pássaro e só volta como uma brisa. Somente o que ficou foi cinzas de papéis e letras queimadas, versos apagados e melodias sem som. O corpo queimado junto a todos desabafos do jovem, ou velho, ou agora morto rapaz. As únicas folhas que sobram sob a carteira iniciavam:  
 Carta De Suicídio… 


- Fragmento de João Pedro Silveira in "Ele se chama Rodolfo" 


quarta-feira, 7 de março de 2012

Um temporal daqueles




É tão intenso que não cabe aqui dentro e acabavam escorrendo em lágrimas de gotas de chuva em meio a um temporal que parecia não ter fim. E não tinham mais as borboletas que estavam no jardim, a moça que passava assobiando por ali não passou naquela tarde escura, seria tarde ou já uma noite ? O colorido das flores se desfez, o brilho das plantas mudou de endereço, os espinhos, até mesmo eles, se desapontaram   com a estação daquele dia. Seria será um outono mais triste que o inverno ? Outono era liberdade, se desprender e não ter rumo pra tomar, desprender-se da melancolia do inverno. A rosa. Aquela que não via estação ruim, não tinha medo dos trovões, ou da chuva cor de lágrima, que assobiava junto a Dona que passava todos os dias, tanto também dava bom dia aos pássaros todas as manhãs. Ela mesmo, A rosa, que abrilhantava o jardim e encantava a qualquer olho que já não estivesse afundado na chuva pesada. Todo aquele frio outono apagou a rosa. Ela ficou desprezada. Não havia olho que não passasse por ali e caísse em tempestade profunda, assim nem notava a presença da pequenina rosa. Que sempre diminuía. Quando notado a presença contemplavam-na como mais um adjetivo molhado. Adjetivo que afundava a rosa em tempestade. A rosa ferida, perdeu seus espinhos, perdeu seu brilho, ficou fraca, estremecia por dentro, estava        murcha por dentro, já estava até despetalada e pálida. Por tempos de inverno ainda não se sabe como a morte não passou de dentro para fora. A simples rosa perdurou. De estação a estação a pequena, cresceu. Amadureceu. Se fortificou, tomou de volta tudo o que o esquecimento tinha tomado dela, e quase como em um passe de mágica se embrulhou como um presente, novo e bonito. Pôs-se até um laço nela. Por trás de tanta beleza haviam novos espinhos, antes desapontados, mas agora afiados. Por depois de tanta tristeza, tempestade e desencantamento a rosa abrilhantou novamente o jardim e tudo que se encontrava perto. Agora muito mais do que antes, ela estava preparada para qualquer tempestade, mas com muita beleza o esperando. 
- João Pedro Silveira    in " Um temporal daqueles" 

sábado, 3 de março de 2012

Saudade de ter você coração.


E do nada uma palavra muda todo o teu coração. E do nada, subitamente, aparece uma louca, grande, gigante, enorme, incontrolável vontade de você. E simplesmente surge uma incansável vontade de chorar e um coração pesado que sempre parece que vai estourar saindo pra fora tudo aquilo que olhando em teus olhos deixei de falar. Assim tão inesperadamente brota um desejo de ter você, como minha. Saber que ao ouvir “amor”  vai ser de mim que você vai lembrar, que aqueles momentos que passamos juntos, vai ser disso que virá a sua mente quando você se deitar. Tá tudo muito espremido. Ah mas como isso dói. Que saudade do teu sorriso, dos teus bicos, caretas. Da tua voz. Eu ouço, eu escuto, o som da sua voz em meus sonhos. Não estou aguentando mais, vem dividir comigo tudo isso que tá guardado aqui dentro, não tá cabendo tudo só comigo amando. Eu divido com você, coração. 
- João Pedro Silveira in Saudade de ter você coração.