terça-feira, 10 de julho de 2012

Ela vai perceber.

Ele se olhava no espelho com um olhar de desespero. E cada vez que percebia mais seus desespero se desesperava mais ainda. Só faltava ele se perfumar agora para sair. Mas parecia que estava esquecendo alguma coisa. Vamos revisar:

- Chaves, anel, carteira, celular e rosa.

Tudo aqui, e agora o que vou fazer ? Ah é perfume. Nossa já são 20:30 não vai dar tempo. To atrasado. Esse cabelo que não para quieto. Será que ela já tá pronta? Acho que vou mandar sms [...] Não, vou parecer muito ansioso, ela vai perceber.

Acho que vou fumar um cigarro antes de sair pra acalmar, mas não dá tempo e vou chegar cheirando a cigarro, deixa pra depois. Acho que não vai dar certo. Porque ela iria aceitar? Faz só 3 semanas. Talvez a rosa ajude um pouco ou seja muito antiquado. Vou deixar a rosa, ela não vai gostar. Mas mulheres amam rosas. Talvez se eu souber algumas palavras bonitas pra dizer pode ajudar. Nada ajuda. Tenho que ter coragem. Vamos.

Ele sai de casa e vai até o carro, que estava brilhante, parecia carro comprado hoje, e por dentro cheirava a jasmim, com tudo arrumado em seu lugar, e no rádio tocava uma canção dos anos 60 do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, with a litlle help from my friends. Não era nenhum música romântica, para combinar com a noite, mas uma noite que o lembrou de sua infância. A cada semáforo em que parava, arrumava seu cabelo. Até que chegou numa ruazinha bem calma sem semáforo, sem movimentação. E parou em frente a quarta casa e esperou. Logo pegou o celular e ligou para ela:

-Alô, oi meu amor. Tá Pronta ? To aqui na frente te esperando.

Ele desligou, abaixou o vidro do carro, e começou a arrumar o cabelo de novo. Depois de um pouco mais de 2 minutos, ela saiu pela porta com um vestido preto. Nada de muito diferente, com alguns detalhes em dourado, um par de brincos muito elegantes, sapato de salto uma maquiagem que realçava sua beleza. Ele desceu do carro e foi ao encontro dela. Se beijaram. Ele então abriu a porta para ela e depois entrou no carro. Agora o rádio estava sem música, o radialista falava sobre o trânsito da noite. Ele até tentou falar alguma coisa, mas ela não entendia nada sobre carros e futebol. Então se fez silêncio até chegarem em um restaurante. Oque aconteceu depois ficou entre eles. Mas que depois de 3 meses, esse garoto estava de preto, e gravata borboleta apertada, sobre um Altar, com os olhos aguados enquanto a mesma moça entrava com um vestido simples novamente, porém ainda bonito entrava por um corredor todo enfeitado. Ah disso eu sei.



- João Pedro da Silveira in " Ela Vai perceber"

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ih, saiu uma

Tá tocando a música na rádio, eu acordei com ela tocando. Comecei a sonhar dormindo, depois acordei, decidi sonhar acordado porque sonhar acordado é quase real, sonhar dormindo não tem graça. Eu tava afim  de nós, tava com saudade de nós dois. Sabe o que é, faz tempo que a gente não se conversa. Esses sentimentos irreais que vem e vão, sempre acabam com a gente, e nós estávamos, quase que mortos. Mas já que é passageiro, passou, e lá vamos nós apanhar mais uma vez. Essa maré não desiste mais, de bater, bater e tentar derrubar. Passei acreditar até no infinito do céu, da água, porque poxa não para. E mesmo no irreal de tudo isso, eu quis inventar um personagem que vivesse bem, um personagem que não fosse triste nem feliz, mas que ele fosse. O que cá entre nós, muitos não vão, só ficam. Mas ele é corajoso ele vai, meio sem rumo, desnorteado, mas tá quase chegando eu acho. Eu não conheço ele muito bem, sei do estado dele, só pela aparência do rosto, mas ele tá tão distante de mim, mas tão perto do fim. Isso eu sei, ou ele está distante do fim, e cá eu estou perto do fim ? Difícil, tá tudo branco, às vezes cinza, alguns dias acorda azul, mas nunca tem começo nem fim. Só o personagem seguindo. Já pensei em criar uma história pra ele pra ver se alegra ou entristece, se muda de cor, se tem diferença. Mas deu preguiça, e ele fez uma cara de quem não gosta de histórias. Daí então exclui a hipótese de contar uma história pra ele. Pensei em talvez música, pra alegrar, uma música com ritmo calmo mas melodia contagiante. Que não fale sobre amor, mas fale da moça com amor. Mas eu tava falando de saudade, que é coisa ruim. Ele deve sofrer de saudade, tá sempre sozinho, já deve ter se apaixonado alguma vez. Que tal uma companheira pra ele? Seria bom, tiraria a solidão. Dava pra conversar com ela já que ele parece que nem boca tem pra conversar. Mas saudade dói, não esqueça, ok? Por isso desapegue, qualquer coisa, nem apegue. Acho que vou ter que dar história pra ele, porque agora to com mania de vontade. E quando desato a ter vontade parece que não passa, e deu vontade de fazer história, quem sabe ele goste de uma história, posso dar companheira pra ele na história. Todo mundo adora companhia, e se eu escrever que ele vai amar ela, ele então vai adorar a companhia dela. Que tal? Acho que ele vai gostar né? Posso até mudar o mundo de cor, se eu escrever a história, se ele falar eu ponho a cor que ele gosta, uma cor que espante saudade. Porque sabe a música não terminou ainda, e saudade tem que ir embora. Saudade deveria ser tipo coisa que a gente manda: Vai embora! Vem aqui! Vem amanhã, pode ser ? . 
Acho que saudade seria legal assim, mas como não é, a gente tira saudade da história porque história a gente que manda. Acho que por isso que todo mundo gosta de ouvir, escrever, inventar história é a gente que manda na história. Pena que só o moço que vive na história, eu não! Nossa tava escrevendo moço, e me toquei que eu não sei o nome dele, também, ele não fala nada. Se eu fizer história ele pode ter nome. Quando pai vai dar nome no filho, é quase uma história, ele escolhe o nome, e tudo, arruma as linhas, o caderno, até a capa mas a história mesmo é o filho que escreve. Pais são legais, né? A parte mais chata eles fazem, o mais legal que é inventar e viver a história eles deixam pros filhos. Como será que meus pais escreveriam minha história?! Será que o moço sem nome da história não tem pai ? Quem saiba eu possa deixar ele escrever a história do filho dele. Ele é quase meu filho, se eu escrever a história dele, nossa! Mas quem fez a capa, linha, margem e o caderno ? Já tá tudo meio que pronto parece. Ou vou ter que escolher? Parecia tão fácil vir aí escrevendo história pros outros, mas já to cheio de dúvidas. Já devo ter te deixado com muitas dúvidas também, coloquei muitas interrogações aqui. Mas é que nunca fiz história, e parece difícil, vou deixar quieto. História é quase como saudade. Deixa a gente cheio de dúvida, parece fácil, mas dá uma trabalheira. 

- João Pedro Silveira in "Ih, saiu uma"